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terça-feira, 4 de junho de 2019

Céu sem nuvens


- É, saiu retinopatia.

Foram essas as palavras da oftalmologista há vinte e um dias. Saí tão desorientada que não perguntei muita coisa e tive que marcar um retorno só para perguntar tudo que eu queria saber.

Abri o navegador e o que aparecia no Google Images na busca "retinopatia diabética" era sempre um par de fotos: uma normal e outra desfocada e com nuvens. O desfocado eu enxerguei algumas vezes e foi até por isso que marquei oftalmo mais cedo este ano: achei que finalmente eu conseguiria usar óculos (tenho esse sonho desde pequena). As nuvens, mandei um o que tenho a ver e segui a vida.

Ontem deixei a glicose chegar a 300 para não ter hipoglicemia noturna e fui dormir. Hoje ainda estava em 200 e pouco e segui em jejum para o último exame que preciso fazer para pedir as novas medicações ao governo. 

Tirado o sangue, comi uma banana, tomei um café e fui pra uma palestra de formação. Éramos poucas professoras, em torno de vinte, e ficamos numa sala branca, com o projetor ligado, pois a palestrante estava utilizando esse recurso para a sua fala, que acabou se estendendo um pouco e passou do meu horário de fazer um lanche. Então quando vi estava quase com uma hipoglicemia. Levantei antes, peguei uma fruta, comi. Tivemos finalmente um intervalo, tomei mais um café, mexi no Twitter, sentei e ela voltou a falar: Aqui como vocês podem ver e olhei para a lousa. 

E lá estavam elas, as nuvens. 

As nuvens flutuavam naquele projetor como na abertura dos Simpsons. Elas são azuis meio cinzas. 

Senti uma profunda tristeza e culpa. Maldito medo de ter hipoglicemia e perder o exame. Maldita hora que dormi com a glicose alta. Maldita diabetes. Maldita eu.

- Filho, desenha pra mãe um céu sem nuvens.
- Tô cansado, mamãe, de noite.
- Por favor, é importante.
- Tá... Sem nuvens?
- Sem nuvens.

quinta-feira, 30 de maio de 2019

O porquê de um novo blog


A resposta é: quando escrevo, liberto-me. E, mais uma vez, preciso. Escrevo porque sinto e aqui eu extravaso.

Sou diabética tipo 1 há quatorze anos. Fui diagnosticada com retinopatia leve dia 15 de maio. Não estou cega. É muito cedo para dizer que eu fique. Porém, há possibilidade. O cuidado que eu não estava tendo ou a falta dele, está sendo revisto. Estou numa louca correria atrás de médicos, medicamentos e cuidado, MUITO CUIDADO, comigo mesma. Uma semana depois soube da neuropatia nas pernas também. Isso também me assusta muito. 

Não tem sido fácil. Depender de boa vontade de médicos é um horror. E não tenho tido boas experiências nesse check-up completo a que tenho me submetido por conta própria. Entretanto, as pessoas que me cercam estão sendo de uma generosidade e cuidado, que eu sempre soube que teria, mas que ao mesmo tempo tem transcendido, porque as pessoas têm sido incríveis.

A retinopatia tem me acompanhado mais, porque, dependendo do nível da minha glicose, eu sinto minha visão embaçada. Aplico insulina e logo se resolve. Mas esse leve desespero tem me apavorado muitas vezes. Por isso decidi escrever. Quero me libertar da angústia. 

A princípio, quero fazer um blog destinado a coisas que ainda quero ver, como o próprio nome já diz. Porém, se sentir necessidade de atualizar sobre minha saúde, colocarei títulos acompanhados de "[OFF]" para sinalizar.

Tudo o que mais quero ver ainda é meu filho Fernando crescer e se tornar o que ele quiser ser na vida. Isso que me importa. O "resto" são pequenas coisas do dia a dia que tô aprendendo a ver melhor, a valorizar mais. 

O que denominei agora de "restos" são, na verdade, pedaços de um mundo que me agarro e não quero largar.






O amanhã

Ao som de Samba de Bênção - Maria Bethânia Eu ainda quero ver o amanhã. Quero acordar e viver um novo dia. Ver velhas e novas pess...